sábado, 27 de abril de 2013

Um ano se passou


Meu tio – sábia pessoa – me diz que quando a gente fala do outro – para o outro – a gente fala da gente mesmo. 

Há quem ache que esta carta é para AnaZ. Desculpa te decepcionar: ela não vai ler. Eu vou ler. Nós vamos. Então, apesar de endereçada a ela, é uma carta pra gente mesmo. Pra mim, pra você, pra quem quiser ler (ou não).

Nada ficou a ser dito, AnaZ. Embora eu ache que sim; eu também acho que não. Muitos perdões. Muitos obrigadas. Muitos te perdôo. Muitos te amo. Ou minutos mais cedo – ah, se eu tivesse sido mais rápida naquela manhã de sábado – eu teria pego você, ainda, com um ultimo sopro de vida. Mas eu cheguei, e você já tinha ido. 

Enfim, depois de quase 2 anos lutando com uma doença ingrata, você se permitiu perder o controle mesmo.

Não, a gente não sabe como é ficar 2 anos quase ininterruptos sem respirar, entubada, vivendo e dependendo de um oxigênio artificial para (SOBRE)viver.
Não, a gente não sabe como é ficar numa cama de hospital, consciente ou não, esperando uma horinha de visita.
Não, a gente não sabe o que é viver uma vida paralela, de delírios.
Isso tudo você soube. Na pele. Nos pulmões. Nos olhos. Nas mãos amarradas, para não arrancar os tubos. No auge da sua inconsciência. E da sua consciência.

Eu e Nilson estávamos lá, diariamente. E isso não é egóico. A gente não é maravilhoso.
A gente te amava. E a gente só podia estar por perto. Só isso. Era o que podíamos fazer por você: estar por perto.
De vez em quando, uma massagem nos pés (nem sempre você gostava). Ou um chamego no cabelo. Ou desamarrar as mãos e fazer massagem nos dedos.

Eu queria poder soprar ar dentro de você. Queria poder dizer: NÃO MORRA!
Mas cada um tem o ar que merece. E o último suspiro que merece.
E você mereceu cada sopro de ar. Cada último suspiro.

É isso.
Hoje faz um ano que você não está mais aqui. Um ano. Trezentos e sessenta e cinco dias. É dia para caralho, né? Os primeiros foram piores do que os últimos. Cada vez vai ser sempre mais fácil. Eu assim espero.

A saudade e o amor, estes serão para sempre.

Eu queria te contar tantas coisas que aconteceram depois que você foi. Mas foda-se, né? Eu não vou contar nada não. Não importa mais.
Importa o silêncio.
E eu lembro de um texto que eu escrevi (dia 02 de março de 2012), e copio abaixo, que, na época, você comentou:

Às vezes, a gente tem a palavra.
Às vezes, o verbo.
Às vezes, o afeto.
Às vezes, apenas o instrumento.
Às vezes, o cheiro.
Às vezes, o som.
Muitas vezes, o silêncio.
E aí a gente percebe que não tinha nada.
Só a porta. 
E quando a gente acha que o silêncio é bom.
Vem um maior.
Sim, silêncio maior.
Daquele até sem o barulho da respiração.
Este não é especialmente ruim.
É diferente.
Quase sufocante.
Sem som.
Sem gente.
Só eu.

É isso. Só o silêncio importa.

Então, durante todas as internações, eu te dei meu silêncio.
E, agora, te dou de novo.
Para todo o sempre.
O meu melhor – e mais sincero – silêncio para você, minha mãe. 
Com todo o meu amor e a minha gratidão por ter sido a minha nave-espacial. 

9 comentários:

  1. Um beijo emocionado, Luana. Estou sempre me lembrando dela.
    Ana Hertz

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  2. Digno de Ana. Você é digna de ser quem é, não 'é', simplesmente. Sinceridade nua, cortante, lírica, sufocante, belíssima. O tamanho de Ana e de Luana, juntas, suas imagens, existências, importâncias... nos engrandecem e obnubilam a tristeza, turvam a dor da saudade, toldam a impotência diante da finitude que enfrentamos nós, com tanto espírito!

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  3. Lulu querida, que texto lindo. Todo o meu carinho,sempre.
    beijo
    Carol (dinda).

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  4. À você, amiga querida, mulher de fibra, guerreira pela vida o que tenho de melhor neste momento pra te oferecer: meu silêncio orante ... Sandro Valle.

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  5. Meu amor minha amiga, simplesmente linda sua carta e sua voz, estou sentindo daqui suasaudade, seu silêncio, sua garra, amo você Lu!

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  6. Querida Luana, muito obrigada por você dividir conosco esse tempo de lembrança. Bartolomeu Campos de Queirós, que também foi se encontrar com a Ana, dizia que "o amor é silencioso". A gente fala, mas ele será sempre silencioso na sua intensidade.
    Beijo carinhoso
    Celia

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  7. Emocionante, Luana.
    Obrigado por dividir essa fotografia tão íntima.
    Obrigado pela carta.
    Beijo
    @jairolsantos

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  8. Maravilhoso seu texto,Luana.Bateu uma saudade ,e um lamento:o da nossa relação,a minha com Ana,ter-se esgarçado daquela maneira,coisa que me privou de estar com ela por mais tempo.Bom,as coisas são como são e não como gostaríamos.
    Beijos.

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